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ARTIGO: FALTA DE GESTÃO E PLANEJAMENTO TAMBÉM MATA!

Sexta-Feira, 02 de outubro de 2020

Já faz tempo que tenho percebido que os gestores públicos têm dificuldades quanto a efetivação do processo de referência e contra referência na rede de saúde. Inclusive, a deficiência já foi motivo de denúncias feitas por mim na condição de presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas junto a órgão competentes que até hoje não mostraram nenhuma eficiência.

Na prática, a triste realidade do processo de referência e contra referência no Amazonas, toda vez que o profissional tem o caso de uma área específica e que precisa encaminhar o paciente para a unidade de referência, rotineiramente o médico se depara com dificuldades quanto a falta de vaga, material, insumos, etc.

Recentemente eu atendi o caso de uma criança que nasceu na maternidade Balbina Mestrinho com quadro de onfalocele congênita, ou seja, com o intestino exposto decorrente da má formação da parede abdominal. Ela precisa que a patologia seja reparada o mais precocemente possível, para que não venha a ter danos maiores no futuro.

Permanecendo mais de 14 dias na UTI, o recém-nascido já foi encaminhado duas ou três vezes para o Instituto da Criança do Amazonas (ICAM), aonde não foi encontrado vaga para que o procedimento cirúrgico fosse realizado. Nesse caso, o ICAM é referência em cirurgia neonatal.

Diante do cenário comum e lastimável que faz parte da falta de gestão e planejamento da rede de saúde do estado, a alternativa foi a prescrição de um parecer ratificando a necessidade da realização do procedimento em caráter emergencial, tendo em vista que a demora só faz postergar correção do problema e coloca em risco a vida da criança. Nesse momento o médico precisa exercer seu papel de especialista e cidadão, conforme prevê o Código de Ética Médica, inclusive denunciando, e deixando claro para o estado e a família do paciente o risco de morte e que a ausência de material necessário não é sua culpa.

A falta de gerenciamento do sistema de referência e contra referência é uma doença crônica no serviço público de saúde. Uma outra área em que isso ocorre com frequência é a área da cirurgia cardíaca, em que o Hospital Francisca Mendes, apesar dos esforços dos profissionais, não conseguem dar evasão ao tratamento na referência que se propõe. A não realização da contra referência alimenta falhas no sistema de saúde, prejudicando a integralidade no atendimento dos pacientes.

De acordo com denúncias, a principal dificuldade do Francisca Mendes é a corriqueira falha na compra de materiais, e no ICAM, possivelmente uma sobrecarga do sistema. E assim, a doença vai se espalhando por diversas as áreas da saúde pública do Amazonas. Vamos vivendo dramas de caos, de trauma, ao ponto até de cadáveres sumirem de dentro das dependências das unidades hospitalares de forma misteriosa. Deus nos proteja!

Nesses 40 anos dedicados a medicina e 15 a militância pelos direitos da categoria, observo a necessidade de trabalhar questões relativas ao sistema de referência e contra referência com o máximo de urgência, atentando que as dificuldades na sua efetivação, podem estar diretamente relacionadas ao excesso de demanda, falta de tempo, ausência de comunicação, falta de serviço de média complexidade na região, entre outros.

Tudo isso, muitas vezes por falta de proatividade da equipe multiprofissional em não denunciar, não se posicionar nos pareceres e documentos afins, que inclusive isentaria o profissional de qualquer responsabilidade, resulta na má interpretação feita pela sociedade contra os próprios trabalhadores que estão na ponta.

Dr. Mario Vianna – presidente Simeam.

 

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